Compreender a economia da IA
Existe um amplo consenso de que é significativo o potencial da IA para transformar a economia global e a forma como trabalhamos. No entanto, os resultados – o que isto significa para o trabalho, para a vida das pessoas e para a economia em geral – não são automáticos nem garantidos. Há ainda muito por fazer. Para lá chegarmos, nós, enquanto sociedade, temos de trabalhar em conjunto para moldar de forma positiva o impacto da IA nas nossas vidas, empregos e economia. Para este trabalho conjunto ser eficaz, é fundamental ter uma compreensão profunda de como a IA está a ser adotada e utilizada na economia. A sociedade precisa de perspectivas empíricas e de investigação baseada em evidências para fundamentar decisões, iniciativas e ações.
Para ajudar neste trabalho, a Google está a disponibilizar a primeira versão do ATLAS de IA e economia (do inglês AI & Economy ATLAS - Activity, Task, Landscape, and Adoption Study), um estudo contínuo, em grande escala e anonimizado sobre como as pessoas estão a utilizar os produtos e ferramentas de IA da Google. O primeiro conjunto de dados do ATLAS (v1.0) é surge a partir de 15 milhões de interações agregadas e anonimizadas entre humanos e IA através da aplicação Gemini, do Modo IA e da API do Gemini, que, juntos, são utilizados, todos os meses, por mais de mil milhões de pessoas. As conclusões do ATLAS v1.0 abrangem mais de 150 países, 140 idiomas, 800 profissões e 4000 tarefas; o ATLAS é a análise mais abrangente até à data sobre como pessoas reais estão a utilizar a IA em escala.
O ATLAS mostra como as pessoas estão a utilizar as ferramentas de IA da Google para várias tarefas no trabalho e no seu dia a dia. O relatório ATLAS v1.0 mostra um panorama em rápida evolução: as capacidades da IA estão a avançar, o seu uso está a evoluir e as ferramentas para observar o seu impacto na economia ainda estão em desenvolvimento.
O que estamos a aprender com o ATLAS v1.0?
Seguem-se algumas das observações mais interessantes até agora:
- A utilização da IA no trabalho é ampla, mas superficial: a adoção no local de trabalho abrange todos os setores da indústria e também 68% de todas as ocupações que, coletivamente, representam quase 90% do emprego total nos EUA. No entanto, nos empregos, as pessoas estão a utilizar a IA de forma seletiva: num trabalho típico, a IA é utilizada em apenas cerca de 21% das tarefas.
- No trabalho, a maior parte da utilização da IA centra-se na colaboração e no apoio com tarefas, e, até agora, a automatização de tarefas é pouco comum: os dados do ATLAS mostram que a grande maioria das interações da IA no trabalho centram-se em utilizações colaborativas, como a conceção, estratégia, a procura de informação e a aprendizagem. Tarefas como o design criativo e os testes de hipóteses (categorizadas no ATLAS como “cognitivas e não repetitivas”) aparecem nas interações de trabalho da IA com uma taxa muito mais elevada do que na economia como um todo (65% vs 35%). Menos de 10% destas interações automatizam totalmente as tarefas.
- A utilização da IA não se limita aos trabalhadores em funções que não impliquem esforço físico direto (white collars) mas também ajuda os trabalhadores em ocupações predominantemente físicas e manuais com tarefas adjacentes: a utilização da IA no trabalho não se limita a empregos tradicionalmente vistos como trabalho de conhecimento. Embora não seja tão predominante, os trabalhadores em profissões manuais e técnicas (por exemplo, técnicos automóveis, mecânicos industriais) estão a utilizar a IA conversacional como um colaborador para diagnósticos em tempo real, resolução de problemas e aprendizagem em tempo real. Quando os trabalhadores destas áreas utilizam as nossas ferramentas de IA, têm duas vezes mais probabilidades de utilizar IA multimodal (ou seja, utilizar IA para criar imagens ou vídeos). Por exemplo, os técnicos automóveis e os mecânicos industriais utilizam a IA para interpretar resultados de testes complexos, diagnosticar avarias elétricas e inspecionar máquinas para detetar desgaste.
- A IA está a acrescentar valor em casa que pode passar despercebido nas métricas económicas padrão, especialmente em tarefas administrativas de elevado atrito: mais de 86% das interações com ferramentas de IA no ATLAS ocorrem fora do trabalho. As pessoas estão a utilizar a IA de formas novas e interessantes que não são registadas nas métricas económicas padrão, incluindo atividades domésticas (por exemplo, pesquisa de compras, ajuda na utilização de eletrodomésticos e ferramentas) e tarefas administrativas de elevado atrito (por exemplo, navegação em serviços governamentais como impostos, licenciamento e multas).
- A adoção global da IA está a acompanhar o PIB per capita, com exceções notáveis: a utilização da IA difundiu-se globalmente. Os dados do ATLAS mostram a utilização da IA em mais de 150 países e territórios que representam 99% da população mundial. Vemos isso também na diversidade de linguagens utilizadas no ATLAS. O inglês representa apenas cerca de um terço das conversas globais sobre IA e os utilizadores não abandonam sistematicamente as suas línguas nativas para tarefas complexas. Olhando mais profundamente, numa base per capita, a utilização da IA reflecte de perto o nível relativo de riqueza de um país o que levanta preocupações sobre a persistência da exclusão digital. No entanto, esta não é uma regra universal: alguns países de rendimento médio da América do Sul e do Médio Oriente estão a adoptar a IA a taxas comparáveis às dos países de rendimento mais elevado.
Seguem-se algumas conclusões adicionais:
Como o ATLAS foi desenvolvido
As conclusões do ATLAS são impulsionadas pelo Observation Clustering and Taxonomy Organisation (OCTO) da Google DeepMind, uma ferramenta para transformar volumes massivos de dados de texto não estruturados, como conversas de LLM, e destilá-los em entidades organizadas. O ATLAS foi desenvolvido com o mais elevado nível de proteção de privacidade. Além de eliminar informações de identificação pessoal (PII), adicionámos várias camadas adicionais de proteção que removem automaticamente quaisquer possíveis referências a informações sensíveis, eliminam todas as ligações entre os dados anonimizados do ATLAS e os registos subjacentes dos utilizadores, resumem os dados de texto e agregam os resumos em grupos que representam múltiplos utilizadores.
O que se segue?
Isto é apenas o início – o ATLAS v1.0 representa o início de um projeto a longo prazo. As capacidades da IA continuam a expandir-se, as pessoas continuam a encontrar formas novas e interessantes de a utilizar, e as metodologias de investigação para compreender a IA continuam a evoluir. Há ainda muitas questões em torno da IA e da economia que irão exigir mais trabalho — um trabalho que o Programa de Investigação em IA e Economia da Google está a realizar em colaboração com investigadores académicos e outros especialistas.
E existe uma dimensão muito mais ampla de utilização da IA com relevância económica que não está refletida no ATLAS. Esta inclui produtos com IA integrada que contam com milhares de milhões de utilizadores e interações, tais como o Google Workspace, o Google Tradutor e a Vista geral de IA, plataformas empresariais, como o Gemini para Google Cloud e o Gemini Enterprise; e recursos de ponta em diversas áreas-chave, como a programação agêntica e os modelos do mundo real.
À medida que continuamos a desenvolver o ATLAS e a expandir o seu alcance e as capacidades para gerar novas conclusões, o nosso objetivo é proporcionar uma compreensão mais precisa da transformação da economia impulsionada pela IA. Esperamos que seja útil para investigadores, decisores políticos, empresas, trabalhadores e outros intervenientes na economia à medida que trabalharmos em conjunto para moldar as formas como a IA pode apoiar positivamente as pessoas nas suas vidas.
Queremos agradecer a Dame Diane Coyle (Cambridge) e ao Dr. David Autor (MIT) pelas suas contribuições para o relatório ATLAS v1.0, bem como a toda a equipa do ATLAS.